Entenda como o acordo da Argentina com credores internacionais pode afetar o Brasil

Com um passado próspero no contexto continental, a Argentina tem enfrentado uma severa crise econômica que só se agravou com pandemia da COVID-19, diante das paralisações das atividades econômicas, bloqueios sociais e o agravamento do desemprego. Em 04 de agosto, o país conseguiu renegociar a sua dívida de aproximadamente R$ 65 bilhões com credores internacionais, após 30 horas de conversas ininterruptas do Ministério da Economia.

Essa negociação e uma possível retomada do crescimento a médio e longo prazo do país podem ter diversos impactos. Para entender melhor o que a economia do país vizinho pode representar para a América do Sul e o Brasil, já que ambos são importantes agroexportadores mundiais, a DATAGRO conversou com a professora e pesquisadora, mestre em economia política e economia e mercados, Natalie Verndl.

“Os credores aceitaram um valor menor para não saírem de mãos atadas. Os dois lados da mesa de negociação tiveram que ceder, já que os credores gostariam e pediram US$ 56 para cada US$ 100 da dívida. E o governo, por outro lado, aceitava US$ 53,40 por cada US$ 100. Porém, fecharam o acordo com US$ 54,80. Isso foi benéfico para o governo de Alberto Fernández, pois resultou em uma economia de US$ 30 bilhões”, afirma Natalie.

Mas, afinal, se a Argentina saísse da crise, o que isso representaria para o Brasil? A professora Natalie apontou que uma economia mais sólida poderia fortalecer os laços comerciais com o Brasil e amenizar os temores econômicos.

“Se um parceiro comercial para com as negociações, isso pode dificultar os processos de recuperação da própria economia local, afetando o resultado da balança comercial. É importante lembrar o fator “Risco País” e o quanto isso afeta as relações exteriores, sendo um grande indicador que os investidores internacionais vão olhar antes de realizar seus investimentos”, completa.

E o Mercosul? “O bloco pode se beneficiar de uma economia argentina com maior estabilidade, uma vez que se reduza a condição do “Risco País”, tudo vai depender de como será articulada a estratégia econômica do ministro Martin Guzmán. O positivo é que essa negociação livrou a Argentina de sua nona moratória, podendo enfrentar o cenário pandêmico, suas adversidades com maior confiança”, afirmou Natalie.

De acordo com as informações do Fundo Monetário Internacional (FMI), a previsão de queda do Produto Interno Bruto (PIB) da economia latino-americana será de 8,1%, sendo Peru, Argentina e Equador os países mais atingidos.

Pautas de exportação

A DATAGRO apurou que a balança agroexportadora da Argentina é bem parecida com a brasileira, abrangendo produtos como soja, milho, trigo e proteínas de origem animal. Vale lembrar que o agro brasileiro é um dos pilares da economia e o fortalecimento do país vizinho pode significar uma competição comercial ainda mais acirrada na América do Sul.

“Em termos de agro, é completamente possível um impacto, pois a pauta de exportação entre os dois países é muito similar. Mas é muito importante lembrar também que a economia argentina é muito dependente da importação dos produtos do Brasil, principalmente”, comentou Natalie.

De acordo com o levantamento feito pela DATAGRO, com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia, nos últimos dez anos as vendas brasileiras para a Argentina foram volumosas. Com destaque para a carne suína, com 235 mil toneladas (2010-2019) e uma receita de mais de US$ 677 milhões nos últimos dez anos. O ano de 2020 não foi, já que o resultado ainda é parcial até agosto.

Além desta proteína, vendas de soja, milho e das carnes bovinas e aviárias também foram registradas, ainda que tímidas. Já os embarques argentinos para o Brasil tem o trigo como produtor que mais se sobressaiu, com 41,51 milhões de t vendidas de 2010 a 2019 e uma receita acima dos US$ 9 bilhões. A soja, o milho e as proteínas bovinas e aviárias também foram compradas pelo Brasil do país vizinho.

Além disso, o Brasil domina mais de 60% do mercado argentino de automóveis, como apontado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Sendo esse um dos maiores interesses brasileiros na recuperação econômica daquele país. “O resultado imediato para o Brasil é de aumento das exportações. Assim, o volume arrecadado aumenta e é lógico que isso estimula internamente a criação de novos empregos nas indústrias nacionais e resulta no aumento da atividade econômica e PIB”, aponta Natalie.

Parceiros da Argentina

Como citado anteriormente, a pauta agro da Argentina é muito parecida com a brasileira. Os dados do Ministério da Agricultura do país (MAGyP, sigla em espanhol), apurados pela DATAGRO, apontam que a participação das exportações para a China de soja nos últimos 10 anos, 2010 a 2019, ficou consolidada em uma soma de 7,34 milhões de t. Egito, Taiwan e Chile também são grandes parceiros, conforme a apuração da DATAGRO.

Na década, 8,72 milhões de t de soja foram enviadas para estes países e outros não citados, gerando uma receita de mais US$ 36 bilhões. Sendo a China responsável por mais de US$ 30 bilhões.

Apesar de participar, a China não é nem de longe o maior mercado do milho argentino. Esse lugar está reservado para a Argélia que, nos últimos 10 anos, absorveu 27,21 milhões de t do cereal. A receita gerada ultrapassou US$ 5 milhões. Em seguida, vem o Egito e o Vietnã e países não citados como grandes compradores do milho, respectivamente.

A fama da Argentina como exportador de commodities também está atrelada ao trigo. A China não importou o cereal do país na última década, sendo a Indonésia o principal comprador. O país asiático absorveu 4,46 milhões de t e uma receita acima dos US$ 880 milhões entre 2016 e 2019. Em 2020, já foram registrados embarques de 2.213 mil t na parcial até agosto.

Fora a Indonésia, Bangladesh e a Tailândia também são mercados consumidores crescentes desde 2015. O cereal já gerou uma receita total de mais de US$ 17 milhões.

Quando se trata de avicultura, a China volta a ser um mercado de extrema importância, já que os dados do MAGyP apontam que 482 mil t foram exportadas nos últimos 10 anos e uma receita de quase US$ 1 bilhão. África do Sul, Chile e Arábia Saudita também são apontados como grandes mercados compradores da proteína e outros países não citados. No período, foram embarcadas 1.415 mil t para esses países.

Já a carne bovina apresenta uma pífia participação chinesa e uma ampla participação do Chile. No período de dez anos, 266 mil t foram enviadas para o país e uma receita de US$ 1,51 bilhão. Em seguida, a Alemanha e a Holanda, além de outros países não citados compraram o produto. A atividade gerou US$ 1,22 bilhão em receita nesses outros países.

Retenções

A Argentina vive um impasse grande entre fomentar seu comércio agroexportador e arrecadar mais impostos para ter dinheiro em caixa. Vale lembrar que o governo de Fernández ressuscitou as “Retenciones”, ou seja, impostos sobre as exportações. A medida foi criticada pelo setor agro devido à perda de competitividade, mas o Brasil não reclamou, já que a soja nacional ficaria mais interessante para futuros compradores.

Mais recentemente, o governo argentino voltou atrás e isentou as tarifas até final do ano.