Giro da América do Sul em 2019/20

“América do Sul em Convulsão”. É assim que imprensa internacional tem classificado os últimos acontecimentos políticos do subcontinente. O desenho feito pela atual conjuntura política mostra uma postura do eleitorado diferente dos últimos anos.

A DATAGRO apurou alguns fatos importantes para entender quais os pontos de virada de alguns desses países e quais os recentes acontecimentos que mexem com investimentos e desenvolvimento na região.

Colômbia

O país vem passando por uma sucessão de presidentes da direita desde Andrés Pastrana (1998-2002). Antes dele, o último presidente do país sendo voltado ao espectro da esquerda, foi Ernesto Samper (1994-1998).

O atual presidente é Iván Duque Marquez (2018-presente).

Em dezembro de 2019, civis foram às ruas por conta da insatisfação ante a atual gestão, alegando que a cesta básica não melhorou por conta de um PIB com crescimento de 2,7%, considerado elevado. O presidente colombiano tem alto índice de desaprovação, 69% segundo a Gallup Poll.

Ainda, segundo a pesquisa feita pela empresa de pesquisa de opinião, a população considera que a corrupção e a insegurança só pioraram nos últimos anos, assim como a pobreza e o desemprego.

Venezuela

Palco de inúmeros episódios que chamaram a atenção dos noticiários internacionais e da própria Organização das Nações Unidas (ONU), a Venezuela está sob gestão de Nicolás Maduro pelo Partido Socialista Unido da Venezuela, fundado por seu antecessor, Hugo Chávez, falecido em 2013.

A crise econômica se agravou nos últimos seis anos, fazendo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país desmoronar, indo de 0,761 em 2017 para 0,726 em 2018. Isso significa a queda de 26 posições no ranking mundial, sendo a maior queda global.

A crise financeira do país se iniciou em 2013 devido à forte desvalorização do petróleo, um dos produtos mais importantes da economia venezuelana. De lá para cá, a moeda também perdeu valor e o autoritarismo aumentou, além de uma crise humanitária e de refugiados.

A inflação chegou a mais de 3.000%, segundo o último balanço do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Bolívia

Após 13 anos no poder, Evo Morales renunciou ao cargo de presidente da Bolívia sob pressão das forças armadas e das ruas que vinham denunciando sua longevidade no poder a eleições fraudulentas.

Diferentemente da situação venezuelana, a Bolívia vinha passando por uma economia crescente, sendo o país que mais se desenvolveu na América do Sul. Segundo a última projeção feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada em outubro de 2019, o país teve seu Produto Interno Bruto (PIB) valorizado em 4% no ano. Na última década, cresceu cerca de 5% ao ano, fato chamado de “milagre econômico boliviano”.

Após sua queda, o caos se instaurou na Bolívia, registrando conflitos entre a polícia e civis a favor do ex-presidente. A situação foi relatada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), que pediu investigação internacional para as mortes e desrespeito de direitos humanos no país em novembro de 2019.

Jeanine Áñez assumiu em novembro o cargo de presidente interina até que novas eleições sejam convocadas.

Chile

O “boom” das manifestações chilenas foi classificado como imprevisível para a imprensa internacional que considerava o país um dos mais estáveis da América do Sul. A insatisfação social eclodiu de forma violenta.

A reação da população veio após o governo anunciar aumento das tarifas do transporte público, pauta considerada um bode expiatório para outras reivindicações.

O atual presidente chileno é Sebastián Piñeda, que vem alternando o posto com a ex-presidente Michelle Bachelet desde 2006. Atualmente, os manifestantes reivindicam um plebiscito para a criação de uma Assembleia Constituinte, já marcada para abril de 2020.

Paraguai

Se os países anteriores passam por crises sociais, o governo de Mário Abdo Benítez tem enfrentado uma crise política relacionada com a Hidrelétrica de Itaipu, a matriz energética mais importante do país.

O “acordo secreto” assinado entre Paraguai e Brasil atingiu o governo de Abdo Benítez em cheio, pois seu conteúdo reverte a divisão da energia de Itaipu que foi acordada ainda em 2009 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Lugo.

O tratado de Itaipu entrega os excedentes de energia a preço de custo para o Brasil, por ser um país maior, porém o acordo teria ficado desvantajoso para o Brasil depois de um tempo. Por isso, foi acordado um novo tratado com os atuais presidentes. Entretanto, a decisão poderia encarecer a conta de luz paraguaia e isso gerou uma onda de protestos no país e até pedidos de impeachment para Abde Benítez.

Segundo a vigência do contrato da hidrelétrica, o acordo expirará em 50 anos (1973-2023), prazo das presidências de Abdo Benítez e Bolsonaro.

Uruguai

Diferentemente dos países citados anteriormente, o Uruguai segue estável, mesmo com a alternância de poder da esquerda para a direita. O país demonstrou maturidade diante do resultado das urnas, após 13 anos do Frente Ampla (Frente Amplio, em espanhol) no poder. Entretanto, a vitória apertada mostra um Uruguai divido, com uma economia estagnada com pouca perspectiva de crescimento. O atual presidente Tabaré Vázquez dará lugar a Lacalle Pou.

Segundo relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2018, a projeção era de crescimento do país em 0,4%, positivo, mas em desaceleração. O último crescimento expressivo do país foi em 2014 quando alcançou 3%. O Produto Interno Bruto (PIB per capita) é o mais elevado da América Latina, com US$ 17.300 por habitante, segundo o Banco Mundial. Apesar de números expressivos, a desaceleração da economia Uruguaia gera desemprego que afeta 9,5% da classe trabalhadora.

O futuro chanceler Ernesto Talvi afirmou que apostará em um Mercosul estável e flexível para acordos bilaterais sem a necessidade de aval do bloco o tempo todo, segundo informação da Agência Brasil.

Argentina

A Argentina vem passando por uma situação econômica complicada desde 2013, quando apresentou um período de forte estagnação financeira, altas taxas de desemprego durante o governo de Cristina Kirchner, atual vice-presidente de Alberto Fernandez, recém-empossado. Entretanto, a saúde financeira do país tem se deteriorado desde o início dos anos 2000.

Diferentemente do antecessor, Maurício Macri, que tinha um viés político voltado a uma direita liberal que agradava ao mercado, Fernandéz traz novamente ao cenário político o peronismo de esquerda. Seu governo terá de lidar com uma dívida de US$ 44 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI) com uma parcela de US$ 11 bi a ser paga. Além disso, a inflação do país é uma das mais altas do subcontinente em 55% e 40% da população está na pobreza.

Além disso, as exportações brasileiras para o país vizinho caíram cerca de 40% e as empresas temem atrasos nos pagamentos. Há, inclusive, o temor que a crise possa reverberar no Brasil com possível retorno de déficit comercial que não acontecia desde 2003.

Brasil

Jair Bolsonaro assume a presidência do Brasil após o governo de Michel Temer, que adveio de um processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT), que ficou 13 anos no poder, de 2003 a 2016.

De lá para cá, o Brasil vem patinando em uma crise econômica de grandes proporções. Em 2008, o mundo passou por uma crise econômica iniciada nos Estados Unidos, mas o governo brasileiro adotou medidas anticíclicas e em vez de pregar a cautela, estimulou o consumo, lastreado no absoluto descontrole da dívida pública.

Atualmente, o governo Bolsonaro tem que lidar com os resquícios de uma crise econômica herdada pelas decisões de presidentes anteriores, assim como a Argentina. Agora, o mercado olha com atenção o país que tem Paulo Guedes como Ministro da Economia, com agenda liberal e adoção de medidas para diminuir gastos, como um novo regime fiscal e a reforma da previdência. Já com melhora dos indicadores econômicos nos últimos meses.